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Covid: o que está por trás da decisão de usar vacina da Pfizer em quem tomou 1ª dose de AstraZeneca

Por Cabn em 13/09/2021 às 21:06:40
Especialistas criticam a falta de diálogo e de políticas de vacinação unificadas entre Ministério da Saúde, Estados e municípios. Esquema heterólogo, com doses de fabricantes diferentes, não é considerado como estratégia principal, mas tem eficácia e segurança comprovadas. Pelo menos cinco capitais registraram falta de doses de AstraZeneca nos últimos dias

Getty Images

Nesta segunda-feira (13/9), algumas cidades brasileiras começaram a oferecer a vacina da Pfizer às pessoas que tomaram a primeira dose do imunizante da AstraZeneca e estão com a segunda dose que protege contra a covid-19 atrasada.

Essa decisão acontece após algumas capitais, como São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Palmas (TO), Porto Velho (RO) e Rio de Janeiro (RJ) registrarem falta de estoques do produto da AstraZeneca durante as primeiras semanas de setembro.

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De um lado, representantes de Estados e municípios alegam que o Ministério da Saúde deixou de enviar vacinas que foram prometidas para o mês — o governo de São Paulo, por exemplo, afirmou ter recebido quase 1 milhão de doses a menos que o previsto.

"O não envio destas doses pelo Ministério da Saúde descumpre uma obrigação do órgão federal em disponibilizar vacinas necessárias à imunização complementar das pessoas que já tomaram a primeira dose da vacina", acusam os dirigentes paulistas, em nota publicada no site do Estado.

Do outro, representantes do governo federal criticam os governadores e prefeitos que fizeram planos próprios de vacinação e não seguem as diretrizes estabelecidas no Programa Nacional de Imunização, o PNI.

Em entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira (13/9), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, classificou a situação como uma "Torre de Babel vacinal", numa alusão bíblica à falta de diálogo entre as diferentes esferas de poder.

"Eu peço que os gestores de saúde sigam o PNI para nós, juntos, conseguirmos fazer uma campanha [de vacinação contra a covid-19] mais eficiente", disse Queiroga.

"No final de semana eu estive no Amazonas, visitei uma unidade de saúde ribeirinha e lá tinha CoronaVac, vacina da Pfizer e da AstraZeneca. Por que lá tem vacina e no principal Estado do país não tem?", perguntou o ministro, numa alusão aos protestos do governo de São Paulo.

Em meio às discussões, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) e responsável por finalizar a produção da vacina da AstraZeneca no Brasil, informa que vai liberar novos lotes, com cerca de 15 milhões de doses, a partir da terça-feira (14/9).

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Cabo de guerra

Não é segredo para ninguém que a campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil é marcada por desavenças e pela falta de coordenação entre governo federal, Estados e municípios.

"O que fez o PNI ser um sucesso nas últimas décadas foi uma política unificada, com decisões que serviam para todo o país", contextualiza a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou esse programa no Ministério da Saúde entre 2011 e 2019.

O problema é que, durante a atual pandemia, os critérios ficaram bagunçados e os governadores e prefeitos passaram a seguir regras próprias.

"Isso só demonstra a desorganização da nossa campanha. O Ministério da Saúde faz um plano e Estados e municípios buscam uma independência que vai gerar o desabastecimento", entende a especialista.

São vários os exemplos desse desajuste — um dos mais recentes é o início da vacinação contra a covid-19 de adolescentes em algumas cidades, à revelia do que foi estabelecido como prioridade pelo governo federal.

O descompasso traz consequências práticas. Isso porque o Ministério da Saúde compra, distribui e indica a aplicação das doses em determinados grupos seguindo um cronograma, que está alinhado aos contratos assinados e aos prazos de entrega dos fabricantes.

Portanto, se um prefeito ou governador decide modificar algo na campanha de vacinação local, como a inclusão de mais pessoas no público-alvo, por exemplo, os estoques podem se esgotar antes do previsto.

É preciso considerar um segundo fator para a falta de doses em algumas cidades: a FioCruz só recebeu uma nova remessa de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo), os ingredientes que vêm da China e são necessários para finalizar a fabricação da vacina no Brasil, nos últimos dias de agosto.

Acontece que o processo de produção, envase e controle de qualidade necessário para liberar os lotes costuma levar cerca de três semanas.

Ou seja: as 15 milhões de doses prometidas para setembro, que garantiriam a continuidade da campanha de vacinação, inclusive com a aplicação da segunda dose numa parcela da população brasileira, só começaram a ficar prontas nos últimos dias.

Procurada pela BBC News Brasil, a FioCruz reafirmou que não há escassez e nem atraso na entrega: os novos lotes serão liberados ainda nesta semana, conforme anunciado num comunicado do dia 2 de setembro.

"A partir de terça-feira (14/9) está previsto o início da liberação de lotes de vacinas, que estão na etapa de controle de qualidade, para as entregas desta semana. Os quantitativos e as datas de entrega serão informados à medida que ocorrerem as liberações", afirmou a fundação, por meio de nota enviada pela assessoria de imprensa.

O pediatra Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), teme que o descompasso entre governo federal, Estados e municípios possa alimentar futuras crises de desabastecimento na campanha contra a covid-19.

"É preciso lembrar que a vacina da Pfizer está sendo utilizada como terceira dose em idosos e imunossuprimidos, é a única aprovada para adolescentes de 12 a 17 anos e agora também é usada naqueles que tomaram a primeira de AstraZeneca em algumas cidades", conta.

"Temos que avaliar muito bem as decisões porque, com a indicação desse imunizante para propósitos que não estavam no plano original, corremos o risco de também sofrermos com a falta de estoque dele no futuro", alerta.

A combinação de vacinas é segura e efetiva?

Segundo as informações oficiais, tudo indica que a política de usar o produto da Pfizer como segunda dose em quem tomou a primeira da AstraZeneca vai durar poucos dias.

A cidade de São Paulo, por exemplo, anunciou que os cidadãos que deveriam receber a segunda dose de AstraZeneca entre 1º e 15 de setembro e estão atrasados tomarão a da Pfizer nos próximos dias.

Mas, como as entregas da FioCruz devem ser iniciadas em breve, as doses de AstraZeneca voltarão a ficar disponíveis nos postos de saúde nos municípios onde elas estavam em falta.

Mesmo assim, vale esclarecer que o esquema heterólogo (com vacinas de dois produtores diferentes) já é realidade para alguns públicos da atual campanha de vacinação.

É o caso das gestantes, que tomaram a primeira dose da AstraZeneca e devem receber a segunda da Pfizer, e dos idosos com mais de 70 anos, que tiveram acesso a duas doses da CoronaVac no início de 2021 e agora poderão levar uma terceira aplicação, preferencialmente de Pfizer, AstraZeneca ou Janssen.

Cunha diz que a combinação de vacinas de mais de um fabricante não deve ser a estratégia principal, mas também não prejudica a saúde.

"Nós continuamos a defender que as pessoas tomem o mesmo tipo de vacina duas vezes. Mas é preciso reconhecer que o esquema heterólogo, com AstraZeneca e Pfizer, trouxe resultados iguais ou até melhores em comparação com o esquema homólogo [com as mesmas duas doses]", interpreta.

Uma das pesquisas a avaliar a possibilidade de combinar as vacinas foi realizada na Universidade de Saarland, na Alemanha.

Os resultados, publicados em julho no periódico científico Nature Medicine, apontam que o esquema heterólogo (AstraZeneca + Pfizer) levou a uma melhor resposta do sistema imunológico em comparação com os regimes homólogos, que se valeram apenas de um tipo de imunizante.

Outro estudo, feito na Universidade de Oxford, no Reino Unido, apontou que aplicar uma vacina diferente como segunda dose pode levar a um aumento em alguns efeitos colaterais mais leves, especialmente a febre.

A investigação também utilizou os produtos de Pfizer ou AstraZeneca.

Mas a boa notícia é que esse incômodo pode ser controlado com a prescrição de remédios que regulam a temperatura corporal.

Por ora, não foram publicados trabalhos sobre a combinação da CoronaVac com os outros imunizantes disponíveis no Brasil ou no mundo. Portanto, ela não é considerada como uma opção para os regimes heterólogos no momento.

As experiências recentes fizeram com que entidades nacionais e internacionais, como o próprio Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), admitissem a possibilidade do esquema heterólogo em situações específicas, como a escassez momentânea de doses de algum fabricante num país ou numa região.

Os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil também reforçam a necessidade de ir ao posto de saúde e tomar a segunda dose para garantir um bom nível de proteção contra a covid-19.

"A eficácia da vacina depende do esquema completo, com as duas doses. Se tomar só a primeira, você não vai ter todo o efeito esperado, ainda mais num cenário marcado pelo avanço da variante Delta do coronavírus", diz Domingues.

E, embora o ideal seja receber a segunda vacina na data estipulada, respeitando o intervalo preconizado, não há nenhum problema em completar o esquema de imunização alguns dias depois.

"O atraso de uma ou duas semanas não vai interferir em nada na resposta vacinal", garante Cunha.

"A segunda dose, mesmo com um pequeno atraso, é fundamental para melhorar a resposta imune e prolongar a proteção contra as formas graves de covid-19", completa o pediatra.

Fonte: G1

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