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Grupo do Paran√° acolhe pais de pessoas LGBTQIA+ e ajuda a entender processo da diversidade sexual

Por CABN em 13/10/2021 às 16:01:13
Iniciativa criada em Curitiba, 'Mami' ampara pais de diferentes religi√Ķes, com dúvidas parecidas após descobrirem que os filhos têm orienta√ß√£o sexual ou identidade de gênero diferente do que esperavam. Grupo Mami foi criado em 2015, em Curitiba

Arquivo pessoal

Desde a descoberta que seria m√£e, a professora Silvia Letícia Matievicz, de Foz do Igua√ßu, no oeste do Paran√°, fez diferentes planos para a única filha menina. Só que nenhum deles previa que, na adolescência, a orienta√ß√£o sexual da jovem seria diferente da esperada por ela.

Quando Silvia percebeu que a filha se interessava afetivamente por garotas, passou a viver um momento de perda.

"Meu luto come√ßou quando ela tinha 11 anos e deu sinais que se interessava por meninas. Ali meu cora√ß√£o come√ßou a acelerar e fiquei preocupada. [...] Mas passei a aceitar minha filha como ela é e n√£o como eu queria. Afinal, o que é amor de m√£e? É amor incondicional", contou.

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Apesar das preocupa√ß√Ķes de m√£e, Silvia acolheu a filha e agora entende que o mais importante é que ela seja feliz.

Entretanto, nem toda família agiu dessa forma e, como m√£e, a professora sofreu ao ver dentro do próprio núcleo familiar o preconceito sobre a diversidade sexual. Por isso, buscou apoio no M√£es de Amor Incondicional (Mami).

Mami é um grupo, criado em Curitiba, que busca ajudar m√£es e pais de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queers, intersexuais e assexuais (LGBTQIA+).

Segundo a fundadora do grupo, Silvia Kreuz, o objetivo é acolher esses pais, de diferentes religi√Ķes, que carregam alguns receios e dúvidas por descobrirem que os filhos têm a orienta√ß√£o sexual ou a identidade de gênero diferente do que esperavam.

Integrantes do grupo M√£es de Amor Incondicional, criado em Curitiba

MAMI/Divulgação

O doutor em psicologia e pesquisador em gêneros, sexualidades e políticas de subjetiva√ß√£o, Rogério Melo, destaca sobre a import√Ęncia do vínculo familiar no momento em que a pessoa se percebe como LGBTQIA+.

"Se essa pessoa n√£o tem um apoio familiar, como que ela vai construir a sua vida minimamente em um país extremamente LGBTfóbico? Se a gente n√£o tem o apoio social, que j√° é muito difícil, se você n√£o tem o apoio em casa, vai dificultar ainda mais."

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'M√£es de Amor Incondicional'

Depois de uma experiência pessoal, a dentista Silvia Kreuz percebeu uma grande necessidade de existir um lugar em que a família da comunidade LGBTQIA+ pudesse conversar sobre o processo da diversidade sexual.

"Comecei a ver que a medida que eu falava da orienta√ß√£o sexual da minha filha, outras m√£es chegavam até mim e falavam do assunto. Notei que algumas vinham como se estivessem pedindo socorro, sem entender o que estava acontecendo com o filho dela."

Ao notar como essa troca de experiências tinha como resultado um maior acolhimento das pessoas da comunidade, o Mami surgiu em 2015.

"Nessas conversas íamos contando sobre nós, como descobrimos e lidamos com aquela situa√ß√£o. Era quase uma terapia de grupo. Vi que n√£o era um projeto, aquele grupo era uma necessidade", disse a fundadora.

Bandeira LGBT

Pixabay

Atualmente, o grupo conta com pais ateus e de diferentes religi√Ķes.

"Trabalhamos com a percep√ß√£o de que meu filho tem direito a uma vida digna, é por isso que a gente luta", disse a fundadora.

De acordo com a fundadora do grupo, todos participantes do grupo se conhecem e a interação entre eles ocorre, principalmente, pelas redes sociais.

Entre os participantes mais próximos, existe a troca de informa√ß√Ķes e até desabafos por um grupo de mensagens.

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O Mami conta ainda com um espaço de defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+.

Como integrante do grupo, Silvia Letícia garante que ao entender mais sobre o processo da diversidade sexual e ao respeitar a filha, o elo da rela√ß√£o entre as duas se fortaleceu.

"A dor veio da quebra de expectativa que tinha pelo planejei para ela, mas o amor é maior que isso e temos que deixar ele vencer. A dor vai passar, deixe a dor passar e abra a porta para o amor ficar."

Processo de percepção

De acordo com doutor em psicologia Rogério Melo, apesar de muitas pessoas LGBTQIA+ entenderem que todos da comunidade devem expor esse pertencimento, nem sempre isso é possível.

“Tem pessoas que têm v√°rios privilégios que garantem um mínimo de existência, um mínimo de violência, um mínimo de sofrimento que ela possa "sair do arm√°rio" e tem outras pessoas que n√£o.”

Ele explica que quem est√° no processo de percep√ß√£o deve buscar ajuda se ainda n√£o sabe como conversar a respeito com a família.

“Procure alguém que você confie, converse, n√£o se feche, n√£o se culpe, mas tente falar. Acho que o silêncio muitas vezes é o que esmaga, é o que provoca muitas coisas. Se a gente vai dialogando aos poucos com alguém, que j√° tem uma experiência, que possa ter vivido outro processo, mesmo que seja diferente do teu, você vai paulatinamente pensando como criar estratégias, como chegar na família, como lidar de uma maneira melhor.”

MAMI luta pelo direitos das pessoas LGBTQIA+

Globo News/Reprodução

Melo destaca que esse cuidado no di√°logo é importante para preservar a própria pessoa, que pode enfrentar desafios no processo dependendo dos próprios marcadores sociais.

“N√£o adianta, nós estamos vivendo em um processo histórico, político e econômico no Brasil de muito retrocesso, mesmo com diante de tantas conquistas que nós tivemos no campo LGBTQIA+. Dependendo da cidade que você est√°, a quest√£o é muito violenta.”

Comunidade LGBTQIA+

A sigla LGBTQIA+ reúne alguns termos para orienta√ß√Ķes sexuais e para identidades de gênero.

Identidade de gênero tem a ver com a forma como você se apresenta na sociedade, seja mulher, homem, ou uma pessoa que n√£o se encaixe no padr√£o de binaridade da sociedade, ou até mesmo sem gênero.

Orienta√ß√£o sexual tem a ver com quem você prefere se relacionar: se com pessoas do mesmo gênero ou n√£o.

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Fonte: G1

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